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Um apetite ainda grande para os ganhos de escala.


Com agressividade, JBS e Marfrig fazem importantes aquisições nos Estados Unidos e no mercado brasileiro
D e todos os setores que compõem o ranking de Multinacionais Brasileiras, o de alimentos é o que apresenta o maior volume de receita proveniente de atividades no exterior: R$ 37 bilhões em números redondos. Desse total, qua¬se R$ 30 bilhões tem uma única fonte, a JBS-Friboi, a mais internacionalizada das empresas brasileiras nos dois primeiros levantamentos Sobeet/Valor - posto arrebatado pela Odebrecht nesta edição. O crescimento das verde-amarelas de alimentos explica por que hoje o Brasil é apontado pelos analistas de mercado como uma das plataformas mais competitivas do mundo para produção de proteínas animais.
O processo de internacionalização das empresas ocorre com velocidade e, invariavelmente, por meio de aquisições. Somente a JBS concluiu mais de 30 nos últimos 15 anos. Tamanha agressividade nas compras é explicada pela necessidade de diversificar a oferta, de ganhar escala, de buscar sinergias operacionais e, sobretudo, de aumentar o poder de barganha perante fornecedores e clientes.

O cenário econômico voltou a ser favorável em 2010, embora haja riscos no horizonte. No primeiro semestre, o comércio mundial de proteínas se recuperou. O volume exportado de carne bovina cresceu 10% no Brasil e 14% nos Estados Unidos. O mercado brasileiro, por sua vez, está em expansão - conseqüência do aumento de renda dos consumidores. Os riscos, segundo os especialistas, envolvem questões sanitárias que pipocam aqui e acolá, bem como o aumento do protecionismo nos mercados globais. "Nos próximos cinco a dez anos vamos encontrar barreiras. O protecionismo está de volta porque os Estados nacionais querem preservar sua essência, gerar emprego, porque só o emprego cria equilíbrio", explica Juan Quirós, presidente do Grupo Advento e ex-dirigente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) entre 2003 e 2007.

A JBS vem enfrentando problemas pontuais em 2010. Devido a restrições impostas às exportações de carne bovina e à escassez de oferta de gado, abriu mão de três de suas seis operações na Argentina. O governo argentino estava, em agosto, à procura de empresas locais para assumir as unidades do frigorífico brasileiro, cuja capacidade de abate é de 6,7 mil cabeças por dia, e operava com ociosidade, devido à falta de animais.
Segundo a Sociedade Rural Argentina, as restrições às exportações de carne bovina e a retração da oferta de gado podem ter provocado o fechamento de 20 frigoríficos no país. Outros 12 enfrentam situação crítica. AJBS também estava com problemas com o grupo Cremonini, sócio italiano na Inalca JBS. Uma das possibilidades, não confirmada oficialmente, seria a venda dos 50% de participação da JBS na "joint venture", formada no fim de 2007, com investimento de 225 milhões de euros.

Embora tenha caído uma posição no ranking, o índice de internacionalização da JBS é alto: 66,9%, quase o dobro do índice geral do setor de alimentos. Na verdade, a queda deu-se por um crescimento grande no mercado interno, graças à absorção do frigorífico Bertin, grande no Brasil mas menos internacionalizado. Tinha, por exemplo, apenas 7% dos ativos no exterior. Por isso, a participação dos ativos do JBS no exterior em relação ao total caiu de 55,9% para 21,7%.

No início do segundo trimestre de 2010, a empresa levantou R$ l ,6 bilhão para aprimorar sua plataforma de distribuição direta. A meta é aumentar a participação das vendas diretas na receita de 10% para 50% até o final de 2012, ou seja, de cerca de 300 mil para mais de milhão de clientes. Em julho, emitiu US$ 700 milhões em títulos de cinco anos, recursos que devem ser dire-cionados para amortização da dívida de curto prazo.
No final de 2009, ao mesmo tempo que finalizava a compra do controle da americana PilgrinVs Pride por US$ 800 milhões, iniciou investidas na Austrália. Por meio da subsidiária Swift Austrália, comprou a Tatiara Meat Company (TMC) por 30 milhões de dólares australianos (equivalentes a US$ 27,5 milhões). Com o negócio, tornou-se a maior processadora de carne ovina do país, com capacidade de abate de 24,5 mil cabeças por dia. De acordo com a JBS, a TMC trabalha com carne ovina de alta qualidade e, além de atuar no mercado doméstico australiano, exporta para os EUA, Canada e Europa. Três meses depois, adquiriu a tam¬bém australiana Rockdale Beef. Localizada em New South Wales, a Rockdale tem capacidade de abate de 200 mil bois por ano e de confinamento de 50 mil bois, simultaneamente.

Nos Estados Unidos, o avanço da JBS enfrenta resistências. Em julho, depois de anunciar a compra da McElha-ney Cattle Company, no Arizona, por US$ 24 milhões, a associação de produtores de gado americana R-CALF USA solicitou suspensão da compra ao Departamento de Justiça com o argumento de que a aquisição pode causar problemas de competitividade no setor.

A área de frigoríficos no Brasil tem recebido apoio do BNDES. No início de 2010, a BNDESPar ficou com 65,1% das debêntures de R$ 3,48 bilhões emitidas pelo JBS Fri-boi. Recursos destinados, entre outros objetivos, a financiar a compra do frigorífico americano Pilgrim's Pride.

No começo do segundo semestre de 2010, também por meio da BNDESPar, o banco comprometeu-se a subscrever integralmente emissão de debêntures de R$ 2,5 bilhões da Marfrig Alimentos, destinadas a fi¬nanciar a compra da Keystone Foods (EUA) e da O'Kane Poultry (Irlanda do Norte).

A trajetória de aquisições fez a Marfrig A.\nentos acelerar sua internacionalização. De 2006 a 2009 saltou da 29 a colocação para a 10.a posição no ranking ias multinacionais brasileiras, com índice de 37,4% investidores estrangeiros absorveram 48% dos 79 milhões de ações ofertadas no final de 2009 para pagar compra da Seara por US$ 899 milhões, concluída no início de 2010. Em 2010, a Marfrig deu seu maior passo o exterior, com a compra da Keystone Foods, dos EUA, por US$ 1,26 bilhão. Especializada em "food services", empresa tem na carteira clientes como McDonaWs, ampbelFs, Subway, entre outros. Fornece a mais de 28 mil restaurantes em 13 países e fechou 2009 com receitam líquida de US$ 6,4 bilhões. Com essa aquisição, o faramento passa a US$ 15,4 bilhões, com caixa líquido cedente de US$ 126 milhões, o que, de acordo com companhia, deve financiar os investimentos na China. Mais focado no crescimento orgânico, o frigorífico Minerva acumulou forças para agora pensar em aquisições. De 2008 para 2009, o Minerva pulou do 48.° para o 24.° lugar no ranking, atingindo um índice de internacionalização de 14,3%. Do seu faturamento total, 17,2% foram obtidos no exterior, onde tem 0,8% dos ativos globais. Devido a restrições na Argentina, o Minerva ampliou sua participação no Oriente Médio. De possível alvo para aquisição, o frigorífico, segundo revelou à "Folha de S.Paulo" seu presidente, Fernando Galletti de Queiroz, passou a comprador e analisa o melhor momento para anunciar a realização de algum negócio. Nas atividades internacionais, a empresa prefere fazer parcerias com distribuidores locais, em vez de manter escritórios próprios.

Pela primeira vez no ranking das multinacionais brasileiras, onde ocupa a 39.a posição, a Brasil Foods (BRF) - "joint venture" que une Perdigão e Sadia - alcançou índice de internacionalização de 4,5%. Das receitas totais obtidas em 2009, pouco mais de 9% foram geradas no exterior, onde estão 0,8% dos ativos globais da companhia. Até o final do terceiro trimestre, a BRF ainda aguardava a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cadê) para a fusão anunciada em maio de 2009.

(Revista Multinacionais Brasileiras, Setembro/Outubro)



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