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"Escolinha do Moreno" põe frigoríficos à prova.


Todas as sextas-feiras, em vez de relaxarem pela chegada do fim de semana, diretores de frigoríficos e supermercados com presença na Argentina vivem momentos de tensão. São obrigados a comparecer na "escolinha do Moreno", como dizem jocosamente os próprios executivos. Trata-se da reunião semanal com o heterodoxo economista que comanda a Secretaria de Comércio Interior, Guillermo Moreno, funcionário ultrafiel ao ex-presidente Néstor Kirchner que dita regras e constrange as companhias a fechar acordos extraoficiais de preços máximos.

No penúltimo encontro, foi ele quem anunciou aos presentes que a brasileira JBS cogitava se desfazer de três de suas oito unidades na Argentina. O secretário colocou financiamento do governo à disposição de empresas que queiram assumir as operações. Mas as perspectivas não são boas: o CREA, consórcio que reúne 1.808 empresas agropecuárias, informou ontem que já foram fechados mais de 20 frigoríficos neste ano e há 8 mil trabalhadores dispensados ou em licença temporária.

Nos últimos dois anos, munido de um mecanismo discricionário que lhe permite escolher quem pode e quem não pode exportar, Moreno adotou uma política de ameaça aos frigoríficos. Às sextas, exige que cada um deles entregue 2 mil toneladas de cortes populares, por 50% do preço normal, às grandes redes de supermercados, que se encarregam de fazer promoções e anunciá-las nos jornais durante o fim de semana.

"Ele obriga a vender abaixo do preço de custo", afirma uma fonte do setor, que pede anonimato. Além de amainar as críticas dos consumidores, que aproveitam as promoções para garantir o assado (churrasco) do domingo, isso ajuda a maquiar o índice oficial de inflação, já que a medição de preços pode ser feita enquanto os descontos estão válidos. Só na segunda-feira, ao comprovar que o volume de carne foi efetivamente entregado, Moreno libera os registros de operação de exportações (ROE).

Nem isso evita, porém, surpresas desagradáveis. Em março, quando o governo voltou a avaliar o fechamento das exportações, um frigorífico brasileiro foi instado por fiscais da alfândega argentina a retirar carne de dentro de contêineres já embarcados no porto de Buenos Aires. A alegação era de que a carne devia ir para o mercado interno. Só uma sequência de ligações para altos funcionários da Casa Rosada permitiu a liberação da carga, avaliada em US$ 150 mil, para fazer o frete transatlântico.

Enquanto a JBS se vê afetada por ter voltado suas operações na Argentina às exportações, a Marfrig tem menos problemas. Só 25% de suas vendas são para o exterior e ela é dona da Quickfood, simbólica na Argentina, que detém a marca de hambúrgueres Paty - com venda diária de 1,6 milhão de unidades. (DR).

(Jornal Valor Econômico, Agronegócios/SP)



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