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Aposta de R$ 18,5 bilhões do BNDES em frigoríficos assusta concorrentes.


A estratégia oficial de turbinar frigoríficos para transformá-los em gigantes mundiais está prestes a bater a marca de R$ 18,5 bilhões recebidos do Banco Nacional de Desenvolvimento e Econômico e Social (BNDES). A maior parte desse dinheiro vem sendo aplicado no JBS e no Marfrig para financiar uma campanha agressiva de aquisições de concorrentes no Brasil e no exterior.
Até agora, o banco estatal já desembolsou R$ 16 bilhões com o setor - R$ 6 bilhões em empréstimos e R$ 10 bilhões na aquisição de participação acionária. Outros R$ 2,5 bilhões foram prometidos na semana passada ao Marfrig, para financiar mais uma compra: a da americana Keystone Foods.
A política do governo de criar grandes multinacionais brasileiras voltou ao debate com a campanha eleitoral e a discussão sobre o papel do BNDES no próximo governo. Nos frigoríficos, a tática de "engorda" começa a entusiasmar os investidores, que enxergam oportunidades de lucro com os papéis dessas empresas. Mas incomoda concorrentes menores e pecuaristas, aborrecidos com a concentração de poder nas mãos de JBS e Marfrig (leia abaixo).
Uma das críticas é que o BNDES estaria subsidiando empresários que poderiam se virar sozinhos. O banco, porém, afirma que a maior parte do dinheiro investido nos frigoríficos não é subsidiado pelo Tesouro Nacional, nem sai do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT). São recursos captados com investidores pela BNDESPar, subsidiária do banco, e repassados aos frigoríficos a custos de mercado.
Empresários do setor, que pedem anonimato por medo de contrariar o governo, questionam a escolha dos parceiros do BNDES. Cerca de três anos atrás, outro frigorífico importante, o Minerva, procurou o banco na tentativa de conseguir apoio para sua expansão. Saiu de mãos vazias. Enquanto isso, apoiado pelo banco estatal, o JBS tornou-se o maior produtor de carne processada do mundo.
No setor, circula a versão de que um dos pontos fortes de JBS e Marfrig são suas conexões políticas. Líderes num setor que exibe margens de retorno baixas e riscos altos, a avaliação do mercado é que essas empresas não teriam ido tão longe sem o BNDES - já que os investidores passaram a olhar os frigoríficos com mais interesse há pouco tempo.
Executivos da área também questionam o perfil das aquisições internacionais - boa parte são companhias em dificuldades financeiras. Há dúvidas sobre a capacidade dos brasileiros de operar as novas aquisições e ganhar dinheiro com elas. Procurados, JBS, Marfrig e BNDES não deram entrevista.
Até 2007, quando essas empresas abriram o capital em bolsa, os frigoríficos eram pouco profissionalizados. Diferentes pecuaristas relataram ao Estado que já foram "roubados na balança" (os bois pesavam menos na balança do frigorífico que na fazenda) e que o uso de caixa dois era uma prática comum.
Cartel. O setor já foi investigado por prática de cartel. Em 2007, o Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (Cade) condenou os frigoríficos Bertin, Minerva, Franco Fabril e Mataboi por manipularem os preços pagos aos pecuaristas. O Friboi ( atual JBS) selou acordo para encerrar as investigações e pagou R$ 13,7 milhões de multa. O Bertin foi incorporado pelo JBS no ano passado.
Nos últimos quatro anos, a BNDESPar investiu mais de R$ 40 bilhões na compra de participações em empresas de setores como telecomunicações, celulose e energia. Cerca de 25% disso foi parar em apenas quatro frigoríficos. A instituição tem 21% do capital do JBS, 14% do Marfrig, 22% do Independência (em recuperação judicial) e uma pequena fatia, de 2,6%, na Brasil Foods (fusão de Sadia e Perdigão).
Os R$ 10 bilhões que o BNDES gastou em compra de participações nos frigoríficos equivalem à metade do valor de mercado do JBS. É também o dobro do que o frigorífico dos irmãos Batista - José, Joesley e Wesley - valia quando abriu o capital, em 2007.
O BNDES diz ter escolhido o setor porque o Brasil é altamente competitivo. Aposta que, com destaque lá fora, JBS e Marfrig vão gerar remessas de lucro e empregos qualificados no País. Nos últimos anos, o JBS comprou empresas como as americanas Swift e Pilgrim"s Pride.
O professor Sérgio Lazzarini, do Insper, entende que o País teria mais benefícios se, em vez de capitalizar os frigoríficos, aplicasse mais dinheiro em infraestrutura. "O setor de frigoríficos é pouco dinâmico. Se é para escolher, faria mais sentido investir em tecnologia de ponta."

(Jornal O Estado de S. Paulo, 25.07.2010)



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