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Investir nas novatas não foi um bom negócio.


Das dez maiores ofertas iniciais do 'boom' de 2007, quatro ações têm queda e duas subiram menos de 4% em 30 meses.

Lucianne Carneiro

A crise internacional, preços elevados dos papéis e as promessas otimistas demais das ofertas iniciais de ações (Initial Public Offering, os IPOs, na sigla em inglês), feitas durante o boom do mercado de capitais brasileiro em 2007, prejudicaram o retorno de quem decidiu investir nessas companhias.

Naquele ano, 64 empresas fizeram IPOs, segundo dados da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Nove dessas ofertas alcançaram volumes bilionários.

Das ações das empresas responsáveis pelas dez maiores ofertas de 2007, quatro acumulam quedas de até 61% entre 2008 e o primeiro semestre deste ano. Seis companhias registram alta, mas dessas apenas quatro tiveram bom desempenho, com valorização entre 13% e 61%. Em dois casos, a alta é menor que 4%. O Ibovespa, no período, recuou 3,85%.

O ano de 2007 foi de pujança. Como havia muita liquidez, as empresas abriram capital com ações a preços muito altos e não necessariamente com fundamentos que justificassem esses preços - afirma o economista-chefe da Personale Investimentos, Carlos Thadeu Filho.

A MPX Energia ON (ação ordinária, com direito a voto), do empresário Eike Batista, foi a companhia com maior desvalorização nos 30 meses, de 60,53%. A segunda maior queda coube à ação BM&F Bovespa ON, de 50,34%. Antes da fusão, a Bovespa Holding e a BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) abriram capital em 2007. A ação PN (preferencial, sem voto) do banco Daycoval registra perda de 37,55% entre 2008 e o primeiro semestre do ano, enquanto Amil ON caiu 6,85% no período.

Em 30 meses, dois períodos de turbulência As ações ON da Redecard e da MRV avançaram, mas apenas 2,02% e 3,91%, respectivamente.

No campo mais positivo, estão GVT ON, com alta de 61,40%, Multiplan ON, que avançou 58,84%, além de JBS ON, com expansão de 28,10%, e Marfrig ON, ganho de 13,82%.

Com a crise de 2008 - que se agravou a partir da quebra do banco americano Lehman Brothers, em 15 de setembro -, as ações sofreram muito. Em 2009, muitos papéis se recuperaram, mas agora em 2010 voltam a sofrer o aumento da aversão ao risco desencadeado pela crise fiscal dos países europeus.

Para o diretor de investimentos da Victoire Brasil Investimentos, Mohamed Mourabet, muitos dos IPOs realizados em 2007 consideravam premissas otimistas demais para o desempenho das empresas, que acabaram não se confirmando.

Era um cenário de forte crescimento mundial e também no Brasil. As ofertas traziam números com a expectativa de que as empresas iam se expandir muito e muitas desvalorizações das ações podem ser explicadas pela frustração com os resultados alcançados - aponta Mourabet, citando como exemplos os papéis de BM&F Bovespa, o banco Daycoval e a MPX Energia.

Outro fator que contribuiu, segundo Alcides Leite, professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios, foi a tendência de empresas com presença mais recente no mercado de capitais serem mais prejudicadas que as demais em momentos de turbulência.

A euforia das ofertas de ações no Brasil foi seguida pela maior crise da Bolsa de Valores desde 1929. E as companhias com capital aberto há menos tempo sofrem porque não são tão conhecidas dos investidores, não têm histórico - destaca Leite.

O economista-chefe da Ágora Corretora, Álvaro Bandeira, considera que comparar a oscilação das empresas entre 2008 e 2010 é "cruel".

As ações sofreram porque aquele período foi o pico das bolsas e dos preços dos ativos. Desde então, atravessamos a crise do subprime americano, as bolsas se recuperaram em 2009, mas agora em 2010 vivemos a crise do déficit dos países europeus. É até natural a oscilação das ações, em se tratando de mercado variável - diz Bandeira.

Menor liquidez tornou ofertas mais seletivas O fato é que o cenário de ofertas públicas iniciais de ações mudou fortemente desde então. Depois das 64 operações de 2007, apenas quatro foram realizadas em 2008 e seis em 2009. Este ano, sete empresas ofereceram seus papéis pela primeira vez ao mercado.

Mas algumas conseguiram um preço menor que o desejado pelas ações e pelo menos duas companhias - EBX e Metalfrio - adiaram planos de abertura de capital.

À medida que a liquidez ficou mais restritiva, os preços das ofertas foram se ajustando.

Os investidores estão mais seletivos.

Havia uma euforia grande por causa da alavancagem e isso não deve voltar - aponta Thadeu Filho.

Bandeira lembra que há momentos melhores e piores para aberturas de capital de empresas.

E diz que já vê um cenário mais positivo para IPOs no segundo semestre do ano.

Os problemas na Europa não foram ultrapassados, mas estão equacionados. E isso abre espaço para as companhias voltarem a fazerem ofertas iniciais de ações.

Investidor deve avaliar bem antes de participar de IPO Diante deste cenário, os analistas recomendam que o investidor avalie e estude cuidadosamente uma empresa antes de decidir atender a uma oferta inicial de ações.

O investidor não pode simplesmente fechar os olhos e investir.

Tem que ver se são boas companhias, com boa administração e potencial de crescimento - diz Álvaro Bandeira.

Outro fator que Carlos Thadeu Filho lembra é que o investimento é de longo prazo.

O investidor deve ser mais restritivo e buscar um horizonte maior. Além disso, o indicado é ter uma assessoria especializada - aponta o economista.

(Portal O Globo).



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