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As feridas que nunca fecham


É longo o caminho para a integração entre negro e brancos na África do Sul, 16 anos depois do fim do apartheid. Por Alda do Amaral Rocha, de Durban e Johannesburgo.

Foi quase um bate e volta para ver a Copa do Mundo na África do Sul. Entre um jogo morno entre Brasil e Portugal e um eletrizante entre Argentina e México, tempo escasso para conhecer  um pouco de Durban e Johannesburgo, mas o suficiente para perceber algo de que já se falou: ainda é longo o caminho para a integração entre negro e brancos na África do Sul, 16 anos depois do apartheid.
 
Bem que há um esforço de organizadores e patrocinadores da Copa para mostrar as melhorias e os avanços que o evento proporcionou e também a África exótica, das danças tribais e animais selvagens. Mas o turista, mesmo o mais desatento, vê mais que isso.
 
Na recém-revitalizada orla da praia em Durban, é difícil encontrar brancos e negros caminhando juntos num fim de tarde. Nas belas cassas do subúrbio da cidade, localizada na província de KwaZulu-Natal, só brancos. No centro da cidade de 185 anos, onde estão algumas das atrações turísticas mais importantes  e o comércio de rua, quase nenhum branco local, apenas negros.
 
"Os brancos não frequentam a área central da cidade, preferem comprar nos shoppings", informou-nos a guia Melody, uma sul-africana de origem européia, que acompanhou, no sábado, um grupo de cerca de 50 convidados para ver a copa. Estes, aliás, só puderam ver a área central de dentro do ônibus porque a guia, credenciada pela Fifa, disse  que não era recomendável passear por lá. "É perigoso", argumentou.
 
Talvez seja, mas o episódio foi uma decepção para quem queria, por exemplo, ver a mesquita Juma Masjid, uma das maiores do Hemisfério Sul, o antigo prédio da prefeitura ou apenas caminhar pelas ruas onde o poeta português Fernando Pessoa viveu na adolescência. E mais: só reforçou a certeza de que a segregação não acabou de fato.
 
Apesar da triste conclusão, foi impossível ignorar o clima de euforia nestes dias de copa na África do Sul. Nem a saída precoce do time da casa no mundial diminuiu o som das vuvuzelas nos estádios e nas ruas. A procura pela camiseta oficial do Bafana Bafana, aliás, continuava altíssima na semana passada. Parece que a África do Sul ficou na moda.
 
O tempo foi exíguo, é verdade. Mas o bastante para querer ficar mais e usufruir da simpatia sul-africana. O suficiente para invejar o futebol criativo e alegre da Argentina e seus torcedores enlouquecidos num Soccer City lotado. E lamentar a burocracia do time de Dunga, que entediou os brasileiros que viram a partida Brasil e Portugal no monumental Moses Madhida.
 
O bastante até, pasmem, para gostar da polêmica vuvuzela, aquela que todos amam odiar, como já escreveu a imprensa sul-africana.

A jornalista viajou à África do Sul a convite da Marfrig Alimentos.

(Jornal Valor Econômico)



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