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O Lucrativo corte da Fogo de chão


Que o churrasco é uma paixão nacional, ninguém discute. Mas poucos brasileiros entendem tanto dessa arte com o empresário gaúcho Arri Coser. Dono de um paladar aguçado para as carnes e de um olhar apurado para os negócios, ele transformou seu restaurante, o Fogo de Chão, em uma das maiores churrascarias do mundo, com loja espalhadas pelo Brasil e pelos Estados Unidos  e com faturamento da ordem de US$ 152 milhões.E é com essa experiência, de quem sabe bem como agradar ao paladar dos clientes mais exigentes, que ele pretende ajudar a mudar a cara da pecuária brasileira.. Coser está na ponta final de um projeto tocado em parceria com o frigorífico Marfrig e pecuaristas do interior de São Paulo e do Centro-Oeste, e que tem como objetivo fomentar o cruzamento de gados angus com nelore, dando origem a uma carne de alta qualidade e, consequentemente, muito mais valorizada, Os primeiros resultados desse tipo de trabalho já chegaram às mesas do restaurante do empresário, que tem justamente a missão de funcionar como uma espécie de vitrine para esses novos cortes. Há três meses o Fogo de Chão serve o steak shoulder, um corte retirado da paleta do boi e que até então era considerado uma carne de segunda, mas que com a genética melhorada se tornou um corte nobre, pronto para agradar tanto o paladar de quem degusta esse bife, como o bolso de quem cria esses animais. "Esse tipo de corte é apenas uma mostra do potencial desse gado. Isso trará um novo padrão de qualidade para o Brasil e com certeza irá abrir novas oportunidades no mercado externo", afirma Coser.
Criado há dois anos, o programa de fomento de criação de angus foi desenvolvido depois que o presidente da Marfrig, Marcos Molina, concluiu aquisições de frigoríficos uruguaios e percebeu que o valor recebido pela carne daquele país era muito maior em relação ao recebido pela carne brasileira. A resposta que ouviu sobre a diferença era a qualidade do produto. Desde então Molina iniciou uma criação própria de angus e desenvolveu um modelo de incentivo para que os pecuaristas optassem pela novidade. Atualmente, a Fogo de Chão é uma das principais compradoras das carnes angus. "Nós viramos parceiros lançando os cortes e ajudando a definir os padrões de qualidade quanto à taxa de gordura e maciez. Hoje das 100 toneladas de carne que consumimos por mês, 10 são provenientes desse programa", revela.
De acordo com o gerente do programa de Fomento da Marfrig, Luciano Andrade, atualmente 60 produtores estão envolvidos no sistema, o que gera o abate de 70 mil cabeças por ano. "No início havia uma resistência entre os produtores, mas aos poucos isso foi acabando e hoje somos procurados por vários deles que querem entrar no programa. Vamos expandir nos próximos anos", explica. Uma adesão que vem sendo conquistada na base de benefícios que vão além do pagamento de prêmios aos pecuaristas. O programa garante a compra da produção, oferece acompanhamento técnico e adiantamento de recursos para a inseminação dos animais. "É um bom incentivo, tendo em vista que não são cobrados juros em cima desse empréstimo."
Facilidades que foram suficientes para atrair o pecuarista Enrique Robles Garcia. Dono de duas propriedades nas cidades de Mirandópolis e Santa Fé do Sul, no interior paulista, suas fazendas somam pouco mais de 800 hectares onde é mantido um rebanho de dez mil cabeças de gado nelore. Há dois anos Garcia enxergou no programa uma forma de agregar valor à sua carne, além de garantir novos mercados. "O mercado está exigindo uma carne e qualidade mais elevada, com maior taxa de marmoreio. Temos que fazer o que o mercado está pedindo e o que está disposto a pagar mais", revela. Em sua propriedade já foram selecionadas cerca de 300 matrizes que receberam  inseminação com sêmen de touros angus. "Os bezerros que nascem dessa mistura são de excelente qualidade, com uma ótima taxa de gordura", explica o pecuarista, que prefere entregar os animais já acabados para os frigoríficos. "Recebemos por peso, então eu prefiro ter um custo maior fazendo a engorda, mas ganhar um preço melhor quando entregar o animal", pondera o produtor, que já faz as contas para lucrar com essa nova tendência. "Minha expectativa é receber um prêmio de 10% no preço da arroba. Isso seria muito interessante e mostra que o programa tem um grande potencial econômico."
Já para o gerente Luciano Andrade, o segredo desse modelo está no acompanhamento técnico rigoroso de todas as etapas da produção. "Quando fechamos o negócio com o pecuarista, ele necessariamente precisa contratar um veterinário que seja aprovado pelo programa", diz.
Embora os resultados sejam considerados positivos, o grande desafio é expandir a produção, que ainda é pequena, e garantir a oferta constante do produto. Dessa forma, grande parte dos animais são comprados e levados para engorda em um confinamento do próprio Marfrig, na cidade de Pereira Barreto (SP). "Assim, podemos ter um controle maior e padronizar os lotes de animais com as características que atendam a cada cliente do programa", explica Andrade. Antes de ir para os piquetes do recinto, com capacidade estática para 15 mil cabeças, os animais passam por um moderno exame de ultrassom que conta com um software capaz de determinar o tempo necessário de engorda para que cada animal atinja os níveis desejados de peso e taxa de gordura. "Conseguimos ter lotes padronizados, evitando que animais sejam abatidos antes ou depois da hora, reduzindo custos", revela o gerente, que já prevê a expansão do projeto. "Estamos estudando levar esse modelo para o Rio Grande do Sul, nos próximos anos, aumentar a oferta dessa carne que será o futuro da pecuária brasileira", finaliza. (Revista Dinheiro Rural, Agronegócio/SP - Fev.11)

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